terça-feira, 24 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
CAUSOS
Causos
CAUSOS DO SUDESTE
PROJETO CAUSOS DO SUDESTE
PÚBLICO ALVO: 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I
DURAÇÃO: 1 MÊS
OBJETIVOS: RESGATAR CONTAÇÃO DE CAUSOS
DISTINGUIR AS LINGUAGENS (FORMAL E INFORMAL)
CONHECER OUTRAS FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS
JUSTIFICATIVA: ATUALMENTE CONTAR “CAUSOS” É ALGO LIGADO AS PESSOAS MAIS VELHAS E PESSOAS DO INTERIOR. TRABALHAR COM ESSE TIPO DE HISTÓRIA, RETOMA ANTIGAS TRADIÇÕES.
USANDO OS CAUSOS, PODEMOS TRABALHAR COM OS DIVERSOS TIPOS DE LINGUAGENS (FORMAL E INFORMAL);
E A UTILIZAÇÃO DA INFORMÁTICA COMO FERRAMENTA EDUCACIONAL, AJUDA NO PROCESSO DE COMPREENSÃO DA ESCRITA E DAS NOVAS TECNOLOGIAS.
METODOLOGIA:
ñ RODA DE CONVERSA (SABER O QUE OS ALUNOS JÁ SABEM SOBRE O TEMA)
ñ LEITURA DE CAUSOS DA REGIÃO SUDESTE
ñ DISCUSSÃO SOBRE AS CARACTERISTICAS DE UM CAUSO
ñ DISCUSSÃO SOBRE AS DIFERENTES LINGUAGENS, E DE COMO E QUANDO ELAS DEVEM SER UTILIZADAS
ñ EXERCÍCIOS (ESCRITA E REESCRITA DE CAUSOS, INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS)
ñ SELEÇÃO DE CAUSO PARA O BLOG
ñ MONTAGEM DO BLOG DA SALA
ñ DIGITAÇÃO DOS CAUSOS.
PRODUTO FINAL: BLOG DA SALA
RECURSOS: CAUSOS DA REGIÃO SUDESTE
COMPUTADORES CONECTADOS A INTERNET.
CAUSOS DO SUDESTE
PROJETO CAUSOS DO SUDESTE
PÚBLICO ALVO: 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL I
DURAÇÃO: 1 MÊS
OBJETIVOS: RESGATAR CONTAÇÃO DE CAUSOS
DISTINGUIR AS LINGUAGENS (FORMAL E INFORMAL)
CONHECER OUTRAS FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS
JUSTIFICATIVA: ATUALMENTE CONTAR “CAUSOS” É ALGO LIGADO AS PESSOAS MAIS VELHAS E PESSOAS DO INTERIOR. TRABALHAR COM ESSE TIPO DE HISTÓRIA, RETOMA ANTIGAS TRADIÇÕES.
USANDO OS CAUSOS, PODEMOS TRABALHAR COM OS DIVERSOS TIPOS DE LINGUAGENS (FORMAL E INFORMAL);
E A UTILIZAÇÃO DA INFORMÁTICA COMO FERRAMENTA EDUCACIONAL, AJUDA NO PROCESSO DE COMPREENSÃO DA ESCRITA E DAS NOVAS TECNOLOGIAS.
METODOLOGIA:
ñ RODA DE CONVERSA (SABER O QUE OS ALUNOS JÁ SABEM SOBRE O TEMA)
ñ LEITURA DE CAUSOS DA REGIÃO SUDESTE
ñ DISCUSSÃO SOBRE AS CARACTERISTICAS DE UM CAUSO
ñ DISCUSSÃO SOBRE AS DIFERENTES LINGUAGENS, E DE COMO E QUANDO ELAS DEVEM SER UTILIZADAS
ñ EXERCÍCIOS (ESCRITA E REESCRITA DE CAUSOS, INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS)
ñ SELEÇÃO DE CAUSO PARA O BLOG
ñ MONTAGEM DO BLOG DA SALA
ñ DIGITAÇÃO DOS CAUSOS.
PRODUTO FINAL: BLOG DA SALA
RECURSOS: CAUSOS DA REGIÃO SUDESTE
COMPUTADORES CONECTADOS A INTERNET.
FOTOS DOS ALUNOS
FOTOS DOS ALUNOS MONTANDO O BLOG
RODA DE CONVERSA SOBRE OS CAUSOS



ALUNOS MONTANDO O BLOG



Seu causo - A Flor do Maracujá
Seu causo - A Flor do Maracujá
Lorem ipsum
Dolor sit amet, consectetuer adipiscing elit. Nam laoreet, dolor ac bibendum molestie, mauris sem pulvinar magna, ac ornare eros eros vitae elit. Nulla in mi pretium orci luctus elementum. Nunc non purus quis dolor ornare malesuada.
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!
Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!
Pelas tranças da mãe-d’água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá
Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!
Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá,
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová,
Pela lança ensangüentada
Da flor do maracujá!
Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!
Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em “A”
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
Causos / Conversa dos bichos
Causos / Conversa dos bichos
O Zequinha, menino de uns 10 anos de idade, era na fazenda do meu padrinho o que se pode chamar de “charrete boy”. Na cidade tem o motoboy, não tem? Então! Nas fazendas tem – ou tinha naquele tempo, que já vai longe – o charrete boy. O menino que com a charrete do fazendeiro vai buscar as coisas ou as pessoas na cidade.
Pois naquele dia o Zequinha tinha ido buscar na cidade o Padre Antônio, que estava iniciando sua temporada por lá. Era um padre novo e tinha uma particularidade que a gente só ficou sabendo depois desse causinho que tô contando aqui e agora: ele era ventríloquo. Um dom que poucas pessoas possuem que é o de falar sem abrir a boca. Dizem que é uma técnica de emitir os sons pelo estômago. Aliás, um grande ventríloquo que existiu no Brasil foi o pai das cantoras Linda e Dircinha Batista. Chamava-se Batista Junior e se apresentava em circos e teatros. E, de lambuja, era um grande compositor.
Mas, seguindo no causo. O Padre Antônio sobe na charrete com o caipirinha Zequinha, ruma a fazenda do meu padrinho pra rezar uma missa. Logo na saída, o padre pergunta se era longe a tal fazenda, ao que o menino prontamente e muito espertamente lhe responde que levaria uns pares de horas. O que dava pra entender que era longe pra cacete e a viagem ia ser dolorosa ou dolorida para um padre que não estava acostumado a meter a bunda no banco duro de uma charrete velha conduzida por uma eguinha lerda.
PADRE – Oh, menino! Você sabia que os animais conversam?
ZEQUINHA – Entre eles, eu sabia, sim sinhô. Eles cunvérsa bastante.
PADRE – Não, filho. Estou dizendo que os animais conversam com a gente. Conosco. Mas para isso é preciso conversar com eles com muito amor. Você quer ver os animais conversando comigo?
Aí o menino, esperto, se encanta e atiça.
ZEQUINHA – Ara, sêo padre. Essa eu tô pagando pra vê. Animar conversa cum gente. Essa nunca vi não sinhô. E o sinhô me adiscurpa, mas num querdito.
PADRE (falando para a égua) – Dona eguinha! Está muito pesada a charrete? (E faz a voz da égua sem abrir a boca) Tááá...sêo padre.
O menino, num susto, pára a charrete.
ZEQUINHA(gaguejando) – Sêo...padre... a égua falo...a minha égua...respondeu pru sinhô...eu escutei...
PADRE – Todos os animais conversam com a gente. Quer ver mais?
O padre olha um urubu nos céus e fala:
PADRE – Bom dia, urubu. (E faz voz.) Bom dia, parceiro. Bom dia, sêo padre.
E assim o Padre Antônio foi se divertindo com a surpresa encantada daquele caboclinho, que viu com os próprios olhos e ouvia ali, in loco, os bichos falando com aquele padre. Com isso, a viagem, que poderia ser longa, terminou logo, logo.
ZEQUINHA – Óia, sêo Padre! O sinhô ta vendo aquela cabrita branca ali na grama? Por favor, o sinhô num querdite em nada que ela fala prô sinhô, viu!!!!!!
Causos / Nos Tempos da Revolução
Causos / Nos Tempos da Revolução
Vejam só: até dos tempos da marfadada revolução tem causos pra gente contar. Esse que conto agora é dum camarada muito boateiro que tinha num bairro de São Paulo. O homem fazia boato de tudo. E isso era sempre num botequinho que ele freqüentava. Inventava coisas do governo militar, coisas de autoridades, zombava disso e daquilo outro.
Acontece que, desse barzinho gostoso de se trocar umas conversas de fim de tarde, um coronel que estava sempre à paisana era também um grande freguês. E, portanto, sabedor e até ouvinte assíduo do boateiro. Ninguém naquele boteco sabia que o coronel era coronel do nosso glorioso Exército... isso porque o dito cujo não fazia propaganda da farda. Era um cabra até que bem humilde e bom de papo.
Mas os boatos do tal amigo foram de certa forma chegando ao exagero e, com isso, no bom palavreado, foi enchendo o saco do bom militar. Daí o tal coronel resolve fazer uma brincadeira corretiva com o boateiro. E, pra isso, simula uma operação militar com jipes, metralhadoras e pessoal fardado, tudo combinado para simplesmente pregar uma boa peça no moço dos boatos, pois os vários boatos já estavam deixando a situação dos militares um pouco chata.
Pois bem. Era de tardezinha, nosso amigo dos boatos falava mal dos fardados e eis que, de repente surge aquela operação militar de araque.
CORONEL (fardado e bravo) – O senhor está preso. Coloquem este indivíduo no camburão. O senhor vai ser julgado por júri militar e condenado, por causa dos boatos referentes ao Exército.
Levam o dito cujo, simulam um júri e a condenação: morte por fuzilamento.
Pois bem. Isso posto, lá está o nosso amigo num paredão e na sua frente 5 fuzileiros apontando armas (com festim, é claro).
CORONEL – Apontarrr.... fogo!
Disparam as armas e o susto foi o pretendido pelo coronel, que se aproxima do boateiro, ainda bravo:
CORONEL – Isso é só pro senhor aprender a não falar mal das Forças Armadas. Entendeu? Fora daqui, sêo desocupado (e dá-lhe um último empurrão).
No outro dia, lá está o nosso querido boateiro, chegando à porta do mesmo botequim, para as conversas de sempre, regadas duma boa cachacinha.
Alguns clientes e amigos que tinham presenciado a prisão do nosso amigo no dia anterior se aproximam para saber das novidades, sobre o efeito da bronca do nosso militar.
FREGUÊS – Então, Justino! Como foi lá no quartel? Conta aí pra gente as novidades...
O nosso amigo boateiro chama todos para perto de si para cochichar um último e criativo boato:
BOATEIRO (falando baixinho) – Olha, pessoal. Não contem pra ninguém. Mas o nosso Exército está totalmente sem munição...
Causos / O Gato da Madame
Causos / O Gato da Madame
Vou contar a história de uma madame que vivia muito solitária, no vigésimo andar de um prédio nos jardins, em São Paulo. Era uma madame muito bonita, que gostava de conforto, e por isso morava num belísso apartamento de ampla salas e grandes suítes. Mas, apesar de ser uma mulher muito rica e coisa e tal, a dita cuja vivia sozinha naquele espaço. Como acontece com tanta gente por aí, é ou não é?
Ah, mas eu ia contar causo de bicho e tô aqui falando de uma madame. Naturalmente vocês pensam que eu me atrapalhei ou me esqueci do fio da meada, mas não é nada disso. Acontece que o causo começa assim mesmo, pois tal madame tinha um gatinho. Lindo que só vendo. Desses que nem parecem de verdade, de tão formoso. Tudo nele era majestoso. Agora, o que impressionava a madame eram os olhos azuis e a expressão de quem entende tudo o que se passa e o que se fala. O que às vezes deve ser verdade e a gente nem se toca. Pois a tal madame se impressionava tanto com o olhar do lindo bichano que achava que só faltava mesmo ele falar. E não é que, acreditando mesmo nisso, a dita cuja deu de conversar o dia inteiro com o gatinho, achando que este método usado para fazer papagaio aprender a falar de tanto a gente repetir era o que tinha que ser feito. E elas sempre terminava as aulas com o gato na insistência: “ Fala, meu bichano, fala...”
O bichano, diante dessas insistências diárias, sempre lhe respondia com um longo...miauuuuuuu. Sempre com olhar azul fixo em sua dona, atal madame dos Jardins. Aquela que vivia solitária com o nosso personagem por companhia.
Mas – sempre tem um mas, como dizia o saudoso amigo Plínio Marcos – eis que o belo dia, logo de manhãzinha, antes que a madame pudesse recomeçar a sua aula de fazer o bicho falar, o dito cujo bicho olha para a madame e diz, bem claramente, até devagar, de um jeito categórico: “Dona, fuja que este prédio vai cair”.
Tal não foi a surpresa de o bicho falar que a dona saiu desembestada gritando no corredor do seu andar, que era o vigésimo: “ Meu gato falou...meu gato falou...Venham ver!”.
E o gatinho ainda insistiu num berro: “Dona! Eu to avisando que este prédio vai cair!”.
Causos / Êta caboclo miserável
Causos / Êta caboclo miserável
Lá em São Joaquim da Barra (lá venho eu com minha terra de novo), tinha o Abílio Estori. Muitos inventaram causos da miserabilidade dele. Quando a gente fala em miserável, é aquele camarada que não rói a unha porque dói. É aquele que, de graça, não dá nem bom dia...etc. e tal.
Sobre o tal Abílio, chegaram a contar dele uma escabrosa. Imaginem os senhores que contam por lá que, um certo dia, o nosso personagem estava com dor de cabeça. Naquela época, era comum tomar o famoso Melhoral para qualquer dor.
Então, isso posto, conta-se que o Abílio, estando com dor de cabeça, teria amarrado na ponta de uma linha bem fina de costura um comprimido de Melhoral. E tomado o comprimido em seguida com um gole de água. Assim que a dor de cabeça passou, o Abílio teria puxado pra fora o Melhoral, para guardá-lo para outra ocasião. Outra dor. Era muito econômico o nosso querido Abílio.
Outra atribuída a ele era nos tempos da bicicleta motorizada. Aquelas que tinham um motorzinho no cano central. Pois bem. Contam que ele descia a rua principal que era um pouco declinada, com o motorzinho ligado, fazendo aquele barulhinho característico de motor...brrr....brrrrrrr...De vez em quando (dizem), o Abílio desligava o tal motorzinho e substituía o seu barulho característico por um ruído igual, só que feito pelos lábios, pela boca... brrrrr... brrrrr...Era muito econômico o nosso Abílio.
Agora, pra encurtar nossos causos, aqui vai uma do saudoso Pedro Chediac, que dizem era muito miserável também. No bom sentido da nossa lembrança querida desse personagem histórico da minha terra.
Pois bem. Lá vem o sêo Pedro numa caminhonete na estrada. Ao ver um caboclo na bêra do caminho, como quem pede carona, este sêo Pedro toma a iniciativa de parar o veículo e oferecer (vejam só) a tal carona.
PEDRO – Pra onde o senhor está indo, amigo?
CABOCLO – Pra fazenda do Lageado, moço.
PEDRO – Entre aqui, que eu lhe levo até o seu destino.
CABOCLO – Obrigado, cidadão... Muito obrigado pela gentileza.
O caboclo subiu na caminhonete. Prosa vai, prosa vem, que lá na minha terra se gosta muito de prosear, o sêo Pedro de repente diz ao caboclo:
PEDRO – O senhor por acaso já me conhecia?
CABOCLO – Só de vista, moço.
PEDRO – Pois eu me apresento. Sou muito conhecido por essas bandas. Meu nome é Pedro Chediac.
O caboclo faz um ar de quem já ouviu falar do sêo Pedro Chediac.
PEDRO – Pois então. Veja o senhor que, na minha cidade, dizem que sou muito miseráve. Mas é intriga. Pois eu mesmo não lhe ofereci carona, agora mesmo? Intão. Eu não sou miseráve nada. Eu sou muito bom. Veja bem: sou uma pessoa tão dadivosa...portanto, não sou miseráve, que isso fosse verdade.... eu quero que, por um castigo, uma jamanta dessas bem grandes e pesadas passe por cima de nóis dois, agora mesmo. Neste instante.
CABOCLO (no ato) – Ô moço! O sinhô qué fazê o favô de encostá a sua caminhonete... Eu quero apeá... agora mesmo. Bem depressa!!!
Causos / O Roubo do Relógio
Causos / O Roubo do Relógio
Naquele arraial do Pau Fincado, havia um sujeitinho danado pra roubar coisas. Às vezes galinha, às vezes cavalo, às vezes coisas miúdas. A verdade é que o dito cujo era chegado em surrupiar bens alheios.
Todo mundo daquele arraial já estava até acostumado com os tais furtos. E a coisa chegou a tal ponto de constância que bastava alguém da por falta de qualquer objeto e lá vinha o comentário: ``Ah, foi o Justino Larápio´´.
E foi numa dessas que sumiu o relógio do cumpadi João, um cidadão por demais conhecido por aquelas bandas do Pau Fincado. Foi a conta de sumir o relógio dele para o dito cujo correr pra delegacia mais próxima e dar parte do fato.
O delegado pediu que o sêo João arranjasse três testemunhas para lavrar o ocorrido e então prender o tal ladrãozinho popular. Arranjar três testemunhas de que o tal Justino havia surrupiado qualquer coisa era fácil, dado a popularidade do dito cujo pra esses afazeres fora da lei.
A cena que conto agora transcorreu assim, sem tirar nem pôr. Intimado o Justino, eis ali, ladrão, vítima e três testemunhas:
DELEGADO (para a primeira testemunha) – O senhor viu o Justino roubar o relógio do sêo João, aqui presente?
TESTEMUNHA 1 – Dotô.Vê, ansim com os óio, eu num posso dizê que vi. Mas sei que ele é ladrão mêmo. O que ele vê na frente dele, ele passa a mão na hora. Pode prendê ele dotô!
DELEGADO (para a segunda testemunha) – E o senhor? Viu o Justino roubar o relógio do sêo João?
TESTEMUNHA 2 – Óia, dotô ...num vô falá que vi ele fazê isso, mas todo mundo no arraiá sabe que ele róba mêmo, uai. Pode prender sem susto. Eu garanto que foi ele que robô esse relógio.
DELEGADO (para a última testemunha) – E o senhor? Pode me dizer se viu o Justino roubar o relógio do sêo João?
TESTEMUNHA 3 – Dotô, ponho a mão no fogo si num foi ele. Prende logo esse sem vergonha, ladrão duma figa. Foi ele mêmo!
DELEGADO – Mas o senhor não viu ele roubar? O senhor sabe que foi ele, mas não viu o fato em si?
TESTEMUNHA 3 – Num carece de vê, dotô! Todo mundo sabe que ele róba. Pode preguntá pra cidade intêra.Foi ele. Prende logo esse peste!
DELEGADO (olhando firme para o Justino) – Olha aqui, Justino. Eu também tenho certeza de que foi você que roubou o relógio do sêo João. Mas, como não temos provas cabíveis, palpáveis e congruentes.... você está, por mim, absolvido.
JUSTINO (espantado, arregalando os olhos para o delegado) – O que, dotô ? O que que o sinhô me diz? Eu tô absorvido????
DELEGADO – Está absolvido.
JUSTINO – Qué dizê intão que eu tenho que devorvê o relógio?
Causos / A Galinha Americana
Causos / A Galinha Americana
Nhô Tico era um cumpadi meu muito querido. Vou contar um causo muito engraçado com Nhô Tico, Nhá Tuda (muié dele) e um montão de galinha! Foi assim:
NHÔ TICO (gritando do terrreiro) – Nhá Tuda? Vô muda de ramo. Vô criá galinha!
NHÁ TUDA (estranhando) – Uai... nóis já temo criação de galinha! Lá no nosso galinhêro ta apinhocado delas. Tem bem umas 50...
NHÔ TICO (explicando) – Não, Nhá Tuda. O que nóis temo é galinha brasileira. Umas merdica magrela, ponhando uns ovico de nada. Tô falando que vô mudá de ramo pruquê vou criá galinha americana, que é o que ta fazendo o japonês. Eles tão tudo podre de rico. Ocê há de vê só uma coisa.
Nhô Tico diz isso e parte pra cidade, onde vai buscar a única galinha americana que seu dinheiro guardado por muito tempo deu pra comprar.
NHÔ TICO (chegando, carregando debaixo do braço uma galinha gorda e branca, linda como uma pluma) –Óia só, Nhá Tuda! Isso sim é que é galinha. Ocê vai vê agora a nossa produção.
A galinha era deveras bonita. Tinha uma crista enorme e vermelha cor de sangue. Os olhos da dita cuja, podem acreditar, eram verdes. Galinha pra desfilar.
Nhô Tico, depois de mostrar orgulhosamente a galinha pra mulher dele, solta a dita cuja no galinheiro, juntamente com as tais 50 outras galinhas – brasileiras e cada uma mais depauperada que a outra.
Dizendo a pura verdade, as galinhas de Nhá Tuda eram a vergonha da nossa raça. Uma estava cambaleando manquitola, outra se coçando de tanto piolho, outra com um olho cego. Enfim, uma tristeza.
E ali estava agora, em meio a esta pocilga, uma raridade americana.
GALINHA AMERICANA (com nojo, olhando a sujeira) – As senhorras morram aqui? Ahnn? My God!!!
GALINHA 1 (respondendo com sotaque caipira) – Nóis véve aqui. Por quê?
GALINHA AMERICANA (sempre com desprezo) – E as senhorras... porr acaso botam???
GALINHA 1 (sempre encarando a arrogância da forasteira) – De vez im quando a gente põe um ovo. Por quê?
GALINHA AMERICANA – E quanto custarrr um ovo de vocês?
GALINHA 1 ( olhando pra uma cumadi) – Oh cumadi? Quanto é que tá um ovo nosso no mercado?
GALINHA 2 – Um rear... mai ô mêno, uai.
GALINHA AMERICANA – Posso usar um ninho de vocês para uma demonstraçon?
GALINHA 1 – Pode ocupá o meu. Se quisé, pode inté morá nele a vida toda.
A americana se ajeita no ninho, fecha os olhinhos verdes e sonha com os States pra depois de uns 15 minutos sair cantando e dançando uns passos de balé.
GALINHA AMERICANA – Cócó dé... cócó dé... Vejam o meu produto!
Ela aponta para um ovo botado ali e agora, de aproximadamente meio quilo, lindo de se ver.
GALINHA AMERICANA (com arrogância) – Se um ovo de vocês custarrr 1 realll, para o meu ovo vão terr que pagar no mínimo...5 reaisss.
GALINHA 1 (olhando para a cumadi brasileira) – Oh cumadi! Vê lá se nóis ia se arrebentá tudo só pru causa de 4 rear... Sai pra lá siô
Causos / Por Falar em Eleição
Causos / Por Falar em Eleição
Sempre que chegava uma eleição, me vem uma saudade danada do Genésio, lá de São Joaquim. Aliás, ele não era de lá, ele era do sertão da Bahia. E conta-se que os pais dele chegaram com a trupe de imigrantes, um punhado de baianinho quase tudo do mesmo tamanho, e se acostaram lá na minha terra. Nesse tempo, o Genésio devia ter uns 14 anos e todo o pessoal dele trazia aquele sotaque arretado de quem nasceu nos fundões da Bahia.
Pois bem. Se acostaram por lá e ficaram, até restar apenas o Genésio, que devia ter uns 50 anos quando resolveu, por ser figura muito popular, se candidatar a deputado.
É preciso que se diga que o simpático Genésio era analfabeto de pai e mãe. E, além de tudo, apesar de já morar em São Joaquim da Barra, estado de São Paulo, e já ter vivido e convivido com meus conterrâneos paulistas uns 36 anos, mesmo assim o nosso Genésio não perdia aquele sotaque de baiano da molésta. Mas, como tinha adotado a minha cidade como sua, e por ela tinha um amor declarado, ai de quem tivesse a ousadia de falar mal da nossa terrinha. O Genésio era capaz de sair, como lá diz o outro, no pau com o dito cujo.
Isso posto, vamos à campanha política que deveria eleger aquele simpático baiano sem letras ao título pretensioso de deputado. Me lembrei do Genésio só pra contar o tanto que era curioso o seu discurso nos palanques de lá. Ele estava sempre acompanhado, como é natural, dos seus grandes cabos eleitorais, onde tem sempre aquele que dá os palpites apelativos ao pé do ouvido do candidato:
CABO ELEITORAL (ao ouvido do Genésio) – Fala da fome, Genésio.
E ele falava....
Mas o que era muito engraçado, e atraía a multidão da cidade aos seus comícios, era principalmente o bordão que o Genésio usava para abrir cada comício.
GENÉSIO (com o sotaque do sertão da Bahia) – Eu sou a fulô que nasceu na Bahia... e veio dá o botão aqui em São Joaquim da Barra.
Era risada geral.
GENÉSIO (em tom sempre discursivo) – A Assembléia ge-néis-la-tiva, de Sum Paulo, vai ter lá... se eu ganhá as inleição – um verdadêro trabaiadô para o povo. Vô trabaiá quiném um leão da Afra (África). E quem quisé vortá nimim... que vorte... quem num quisé vortá... qui num vorte... Agora... seu eu ganhá as inleição... ai daqueles qui estão iscondido atrás dos tôco (ameaçava todo mundo ingenuamente).
Nessas caminhadas discursivas, eis que o Genésio e seus comandados chegam até a cidade de Ituverava, que fica perto de São Joaquim. E lá também foi a mesma lengalenga.
GENÉSIO – Eu sou a fulô que basceu na Bahia e veio dá o botão em São Joaquim da Barra. Povo de I-ga-ra-pa-va.
CABO ELEITORAL (corrigia ao pé do ouvido dele) – Genésio! Não é Igarapava, é Ituverava!
GENÉSIO – Povo de I-tum-bi-ara...
CABO – Genésio! Você errou de novo. Não é Itumbiara e sim Ituverava!!!
GENÉSIO (encerrando o papo bem ao microfone, para todos ouvirem) – Dêxa de sê burro, ô cabo! Pois tu num sabe que cidade do interiô é tudo a mêma merda...
Claro que o querido Genésio perdeu as “inleição”.
Causos / Dito Preto e o guarda
Causos / Dito Preto e o guarda
Quem nunca ouviu falar do Dito Preto lá da minha terra deveras não sabe nada de mim. Pois até hoje não me apareceu amigo melhor – e ele infelizmente partiu fora do combinado, que é como eu costumo dizer. Falo sobre este personagem real que marcou muito a minha vida porque vou contar uma das suas.
O Dito tinha comprado um caminhãozinho ano 1928, Chevrolet, que era apelidado de “cabeça-de-cavalo”. O dito cujo, calhambeque, não tinha mais onde estar estragado. Sem pára-choque dianteiro ou traseiro, sem portas, carroceria podre, toda torta, pintura enferrujada que não dava nem pra ver a cor do bicho. Enfim, era aquele despropósito de viatura.
Mas, como o motor estava retificado, e esses motorzinhos vão longe até não sei quando, para o que ele queria de sua serventia tava pra lá de bom. Era só para o trabalho de puxar cana nas fazendas da redondezas, e isso ele agüentava bem.
Aos sábados, que era dia de folga do Dito – e é num desses dias em que se passa o nosso causo -, o Dito como sempre toma o rumo da Via Anhanguera, que leva até o rio Sapucaí, que está bem pertinho da nossa terrinha, que é São Joaquim da Barra, que foi onde eu e o Dito nascemos já faz um tempão.
Pois bem: ao pegar a referida estrada, num trecho onde estava sendo inaugurada uma melhoria no asfalto, eis que aparece, para surpresa do Dito, um enorme guarda rodoviário, fazendo sinal para ele, o Dito, encostar.
Dito foi com seu caminhãozinho para a direita da estrada e, lá embaixo, depois de rodar uns 100 metros, foi que parou com tudo. Não se ouvia mais nem o ronco do motor do calhambeque, que era aquela coisa sem definição, de tanto se misturar com o barulho de lata velha e carroceria podre. O diálogo que se seguiu entre ele e guarda, depois de o mesmo ter andado muito pra chegar até o lugar, foi assim:
GUARDA – Boa tarde (eram 6 da tarde, que é hora de pescaria).
DITO – Boa tarde, sim sinhô.
GUARDA – Vamos ver se está tudo em ordem?
DITO – Vamo sim, sinhô. Tô aqui pra colaborá com a polícia.
GUARDA – A carta?
DITO – Que carta, sêo guarda?
GUARDA – A carta de motorista, ué. Que carta poderia ser?
DITO – Ahn... essa, num tenho não. Num deu tempo d´eu cumprá a carta ainda.
GUARDA – Documento do carro?
DITO – Que documento?
GUARDA – Documento de propriedade do carro. Documento que prova que o carro é seu.
DITO (ofendido) – Pelo amor de Deus! O carro é meu. Comprei ele à prestação do Coroné Lindário. Pode perguntá lá em São Joaquim. Todo mundo me cunhece.
GUARDA ( já meio impaciente) – Mas o senhor tem que ter esse documento, meu amigo. Quer dizer que não tem?
DITO – Não sinhô. Esse documento, também num tenho não. Mas assim que eu pudé eu compro ele também...
GUARDA (indo à frente do caminhãozinho) – Ascenda os faróis.
DITO – O sinhô vá descurpá. O faró da esquerda tá queimado. E o da direita tá sem luz.
GUARDA – O senhor não tem nem pára-choque! É o que estou vendo.
DITO – Não, sinhô. Onde eu trabaio num pricisa. Num tem choque cum nada. É nas fazenda, puxando cana.
GUARDA – Buzina? O senhor tem?
DITO – Não, sinhô . num tenho também não. Num vô mentí pro sinhô. O sinhô acha que eu vô gastá dinhero cum supérfuo?
GUARDA (já meio irritado com tudo) – Eu espero que, pelo menos, breque o senhor tenha.
DITO – Se eu tivesse breque tinha parado lá atrás, quando o sinhô mandô!
GUARDA (já puto) – Não tem breque também, não é?
Pois bem: o senhor não tem carta, não tem documento, não tem farol, não tem buzina, não tem breque... Olha, meu amigo, se eu for multar o senhor, nem vendendo este caminhão vai dar pra pagar tanta multa. Onde o senhor está indo agora?
DITO (calmo) – Tô indo pescá uns peixinho no Sapucaí, que fica logo ali, ó.
GUARDA (puto, mas muito compreensivo) – Vamos fazer uma coisa. Faz de conta que eu não vi o senhor. Pode ir embora com o seu “veículo”.
DITO (calmamente, do seu jeito gaiato) – Então, sêo guarda, me faz um favô. Dá uma impurradinha no bicho que eu tô sem bateria tomém...
Contava o Dito que o guarda, numa boa, empurrou sozinho o tal “cabeça-de-cavalo” Chevrolet.
Causos / Fordinho 29
Causos / Fordinho 29
Dito Preto, um amigo meu, caminhãozinho Ford 29 para puxar cana na Fazenda. Tinha comprado à prestação, mas o Fordinho estava acabado.
Ele trabalhava com o caminhãozinho Fordeco durante a semana e no sábado colocava as varas no caminhãozinho e ia pescar. Naquele sábado, ele já tinha tomado 'umas e outras' e ia indo para o Rio Sapucaí. No meio da estrada, apareceu um guarda rodoviário. O policial fez sinal para ele parar. Dito Preto foi indo com o caminhãozinho pelo acostamento. 'Beeeeeeem' lá na frente parou. O guarda chegou e disse:
- Deixa eu ver a carta...
...de motorista.
- Seu guarda, não vou enganar o senhor. Não vou dizer que tenho
carta porque eu não tenho. Comprei esse caminhãozinho para puxar cana na fazenda e ainda não deu pra comprar a...
...carta.
- Então deixa eu ver o documento do caminhão.
- Seu guarda, não vou enganar o senhor. Não vou dizer que tenho documento porque não tenho. Ainda não comprei não, senhor.
- Não tem carta, não tem documento...
- Mas todo mundo me conhece por essas bandas, seu guarda. É só perguntar. Todo mundo sabe que o caminhãozinho é meu. Quando tiver tempo, vou comprar a carta e o documento lá com o delegado.
- Então acende os faróis.
- Vai desculpar, seu guarda, mas o direito não tem. E o esquerdo tá queimado.
- E a buzina?
- Não vou dizer pro senhor que tenho, porque não tenho. Comprei o caminhãozinho à prestação e não deu pra colocar a buzina.
- E o breque? Pelo menos o breque, o senhor...
...tem?
- O senhor acha que se eu tivesse breque não tinha parado lá atrás, quando o senhor mandou?
- Se eu for multar o senhor, a multa vai ser tão alta que nem vendendo o caminhãozinho o senhor vai poder pagar. Então, vai pescar de uma vez.
- Mas não tem bateria, seu guarda. O senhor ajuda a empurrar?
E o guarda empurrou.
Causos / O Compadre, o Lobisomen e o Porco no Rolete
Causos / O Compadre, o Lobisomen e o Porco no Rolete
A escuridão da noite aos poucos era engolida pelos primeiros raios de sol que surgia por detrás da velha cerca de arame. Dentro do velho casebre a família preparava-se para mais um dia na labuta.
A escuridão da noite aos poucos era engolida pelos primeiros raios de sol que surgia por detrás da velha cerca de arame. Dentro do velho casebre a família preparava-se para mais um dia na labuta.
Foi quando uma barulhança danada tomou conta do terreiros.
O galo destampou a cantar, as galinhas cacarejavam sem modéstia, cachorros, cavalos, patos e até o velho gardenal, um gato meio maluco que vivia ali pelo terreiro começou a miar.
Fui abrindo a porta lentamente, pois era início da quaresma, e o comentário de que um lobisomem havia rondado o descampado me assustava.
O brilho do sol já raiava, e ofuscava minha visão. Mas aos pouco pude ver chegando bem de vargarinho o causador de tanta barulhança.
Era o compadre Justino, que morava lá pras bandas de Toledo.
A surpresa foi grande, pois o velho homem há muito tempo não nos visitava.
___ Vai apiando compadre, vai entrando que a casa é sua.
___ Diiiia Compadre Zé! Desculpa pelo horário, é que sai bem cedinho de Todelo, passei a noite no galope e só pude chegar agora.
___ Larga de modisse compadre, vai apiando que a mulher já está preparando o café.
Compadre Justino é um grande amigo. Fomos praticamente criados juntos. Mas o destino nos separou a quase dez anos.
___ Impurra o gardenal pro canto, senta ai compadre, fala logo da família, da vida, das andanças?
___ Pois é compadre! Eu estava meio acabrunhado. O médico disse que acabrunhado agora chama, estresse. E me pediu pra tirar uns dias de folga. Então pensei em vir pra cá passar uns dias. Espero não estar incomodando?
___ Não se aveche, velho amigo. A minha casa será sempre a sua. Vou te levar pra carpiná um café com marmelada que quero ver se esse tal de estresse te larga ou não.
O riso do compadre surgiu derrepente, os causos e as histórias sérias foram surgindo como no passado.
Falamos de família, dos novos costumes do homem moderno. Até que a Zuza, carinhosamente nos alertou para o horário.
Já era hora de ir para a labuta.
Mas confesso, que saí dali com uma curiosidade que me beliscava por dentro.
Entre todos os causos contados pelo Justino, o que mais me deixou intrigado foi a do porco no rolete.
Disse, ele, que lá pras bandas de Toledo, nesta época acontece uma tal de festa do porco no rolete, e que toda a região se movimenta ao redor deste costume.
A minha cabeça ficou tinindo. Quando ele começou a falar, a boca foi logo enchendo d´agua. As lombrigas se assanharam todas.
E decidi que queria comer o tal de porco no rolete.
Naquele dia não trabalhei direito até ouvi a Zuza dizer que eu estava queimem mulher prenha.
Mas podiam até zombar de mim, eu havia decidido a experimentar o danado do porco.
Saí mais cedo da lavoura, arriei o Biruta, meu cavalo e com a companhia do compadre saímos pelas fazendas da região a procura de um bom capado para enrroletá-lo.
Na primeira tentativa não deu certo, os capadinhos estavão muito magrinhos.
Na segunda fazenda, os porcos já estavam vendidos pra uma fábrica de bacon.
Na terceira fazenda, o fazendeiro havia se separado a esposa e os porcos entraram no inventário, e não poderiam ser comercializados até uma posição do Juiz.
Há! A aflição tomou conta de mim. O desespero e a vontade de comer o tal de porco no rolete só me judiava.
Maldita hora que o Justino foi me contar esta novidade. O pior era que ele me acompahava na busca do suíno, e o tempo todo tentava me convencer de que eu não devia ficar tão entusiasmada com o assado.
Mas pra mim já era uma questão de honra comer o tal do porco.
Como eu havia dito, estávamos em plena quaresma, os rumores de que um lobisomem rondava a região aumentava a cada dia.
Eu que já lutei com vários lobisomens em minha vida, não me preocupava muito.
Os dias foram passando, e nada de encontrar um porco no ponto de ser assado.
A quaresma estava chegando ao fim, e as novenas se intensificavam na região.Naquela noite, a reza seria na casa do Nhô Quincas que morava em uma fazenda a muitas léguas dali.
Arrumamos as trouxas, arriei o potro e partimos para o louvor.
O compadre Justino preferiu não ir, disse ele que estava com uma dor de barriga danada.
Tudo bem! Então vamos eu e Zuza.
A reza foi das melhores. Teve até encenação da morte de Jesus Cristo. Lá pras quatro da manhã eu e Zuza resolvemos voltar para casa.
Cruzamos a mata fechada, os cafezais, a lavoura de algodão e quando íamos entrar na ponte do rio Arara que separa o algodaá do descampado, lá estava ele.
Um porção de fazer inveja a qualquer suíno de televisão. O bicho era bonito, grande, rosado, mas parecia um monstro.
___ È o tal do lobisomem homem! Gritou a Zuza.
___ Que lobisomem, que nada mulher! È o danado do porco que eu venho a dias tentando encontrar.
___ Pelo amor de Deus deixa o bicho quieto.
___ Quero ver eu deixar! Lobisomem ou não, ele vai para no rolete.
Esporei o cavalo e parti para cima do porco. De início o bicho resolveu encarar, mas quando ele viu que eu estava decidido a dominá-lo, o bicho resolveu fugir.
Pulei do cavalo como chicote em punho, estalei o rabo de tatu e parti para cima do cachaço.
Parpa daqui, parpa dali, sobe serra, desce rebalo, mas nada de pegar o danado.
Corremos de um lado para o outro quase todo o resto da manhã.
Confesso que eu já estava começando a ficar cansado. Mas aminha vontade era tanta que poderia durar o resto da quaresma, poderia até o porco ser o tal do lobisomem, que eu ia assá-lo, há eu ia.
A essa altura nós dois, eu e o porco entramos no descampado que desemboca na minha pequena casinha.
O danado do porco não sabia mais oque fazer, se ele falasse, com certeza me pediria pelo amor de Deus para deixá-lo em paz.
Correu para trás do galinheiro, passou por cima dos fardos de algodão e mirou a direção da minha casa.
Foi quando observei que a porta estava aberta. Então gritei:
___ Socorre compadre, prepara o tacho com a água fervendo que o porco ta chegando.
O porco não tendo para onde correr, entrou em minha casinha.
___ Aprochegue compadre, fecha a porta que desta vez ele não escapa.
Mas interessante, o compadre não apareceu.
O porco correu e se escondeu detrás do fogão a lenha na cozinha.
Então eu havia encurralado o bico.
Peguei espingarda, fui pé-por-pé, até a entrada do aberto onde o porco estava escondido.
Engatilhei a magrela, firmei o dedo e o pensamento, quando comecei a arrastar o gatilho gritos de pelo amor de Deus surgiram de trás do fogão:
___ Calma homem! Pelo amor de Deus não atira. Sou eu seu compadre.
E não é que era mesmo. O homem estava pelado, todo arranhado, cheio de chicotadas. O compadre era o lobisomem. Por isso que ele defendia tanto os porquinhos.
E mais uma vez eu fiquei sem comer o tal de porco no rolete.
Assinar:
Comentários (Atom)